Monday, August 29, 2005




Como resumir Camões sem maçar os neurónios


Num dos seus poemas mais conhecidos, Natália Correia exclamava: «Ó subalimentados do sonho!/A poesia é para comer.» Era o tempo dos ideais intactos em que os poetas acreditavam que a democracia, a instaurar em breve, resolveria os seculares défices educacionais do povo português, que o salazarismo inequivocamente agudizou. Trinta anos depois, chegaremos nós à triste conclusão de que os ditos subalimentados nunca quiseram outro sonho senão andar em círculos no Almada Fórum e substituir o telemóvel de três em três meses?
A que propósito vem tal angústia? - perguntará o gentil público. A propósito duma banal conversa de Domingo com um adolescente e sua (ainda jovem) avó. A preparar mais um ano lectivo, o rapaz mostrou-se apreensivo com as leituras que poderão ser exigidas na disciplina de Português - Os Lusíadas, por exemplo. Ao que a avó, dona-de-casa convertida à religião dos «SMS» a ponto de os usar no cinema, exclamou, expedita:

- Mas há resumos.

Confesso que vi tudo turvo. Resumos? Como diabo se há-de resumir poesia? Dizendo que o poeta Camões, necessitado duma reformazita, escreveu e dedicou ao Rei um livro muita grande sobre as glórias da História de Portugal? Contando como o Vasco da Gama chegara à Índia, não sem antes enfrentar um mano bué da chato chamado Adamastor e - alegria das alegrias - dar umas cambalhotas com umas ninfas, na Ilha dos Amores?
O que me irritou foi esta resposta pronta, não do aluno, mas da avó, a quem apenas interessa que ele passe com uma nota aceitável, sem, na verdade, lhe interessar se ele aprende alguma coisa ou adquire hábitos de leitura. É o país que conseguimos construir em trinta anos de Democracia. Os pais rejubilam porque reduzem as suas inquietações à nota final para espetar na cara do vizinho do lado, juntamente com a nova arca frigorífica e o automóvel. Os professores (ou boa parte deles)contornam a enorme maçada de converter à Literatura uma horda de adolescentes em perpétuo desassossego. O Ministério da Educação mostra à União Europeia como consegue dar a escolaridade obrigatória aos filhos dos PALOP's e dos brancos pobres. É bom. Ficamos todos contentes e não pensamos mais nisso.

2 comments:

Helena said...

Devia haver resumos do diário da república. E também era bom se o blá blá dos políticos nos jornais viesse mais resumido. Também não me importava se os episódios das telenovelas fossem todos resumidos e o tempo que se gasta a acompanhar a época de futebol fosse resumido a um terço. Se calhar, depois já haveria tempo para ler os Lusíadas e dizer-se, de consciência: - Realmente, prefiro matemática.

maria joão martins said...

Salazar educou-nos para o desalento. Os governos democraticamente eleitos estão a educar-nos para as alegrias da mediocridade.